Um dia de futuro promovido pela TW Content

A primeira edição do Blockchain Festival reuniu 27 especialistas e uma plateia de 515 pessoas, de diferentes partes do país, para debater o potencial da tecnologia que começa a redefinir indústrias, transações de dados e até a democracia

Por Tiago Cordeiro

Fotos Alexandre Battibugli

 Plateia atenta ao Blockchain Festival, promovido pela TW Content

Plateia atenta ao Blockchain Festival, promovido pela TW Content

Não é toda geração que pode experimentar mais de uma tecnologia disruptiva ao longo da vida. Quem viveu o crescimento da internet, que se popularizou nos anos 1990, viu uma revolução tomar conta do planeta e transformar para sempre a maneira como as informações são compartilhadas. Apenas duas décadas depois, uma nova ferramenta promete realizar uma nova transformação global, de impacto tão grande quanto a internet: o blockchain.

Foi para mergulhar no universo do blockchain, entender suas aplicações práticas e debater as polêmicas que cercam essa tecnologia que a agência de conteúdo TW Content reuniu 27 especialistas, de diferentes lugares do Brasil, para um dia inteiro de palestras, estudos de caso e painéis. Realizado no dia 23, no Hotel Renaissance, em São Paulo, o Blockchain Festival reuniu 515 espectadores, sinal do quanto essa ferramenta é promissora e já desperta o interesse das pessoas ligadas ao mundo empresarial, além de 27 jornalistas. O evento recebeu apoio do inovaBra, o centro de inovação do Bradesco, e da Redpoint eventures.

 O jornalista Pedro Doria, mestre de cerimônias do Blockchain Festival, abre o evento

O jornalista Pedro Doria, mestre de cerimônias do Blockchain Festival, abre o evento

 

Definição

O que é, afinal de contas, blockchain? Logo na primeira palestra, realizada no início da manhã, o keynote speaker Ronaldo Lemos respondeu: “É um banco de dados compartilhado, distribuído, consensual e com garantia de integridade”. Ele fala do assunto com propriedade. Advogado, especialista em mídia, doutor em direito, Lemos representa no Brasil o MIT Media Lab. Para ele, o Brasil tem uma vocação a cumprir, e pode fazê-lo utilizando a tecnologia. “Temos condições de sermos um player global muito importante no desenvolvimento de tecnologias em blockchain. E podemos fazer isso lidando com um problema com o qual estamos bem familiarizados: a burocracia”.

 Ronaldo Lemos afirmou que o Brasil pode ter um papel importante no desenvolvimento do blockchain

Ronaldo Lemos afirmou que o Brasil pode ter um papel importante no desenvolvimento do blockchain

Ao longo da programação de oito horas, apresentações e discussões mostraram as diferentes formas de utilização dessa tecnologia. Vários dos especialistas lembraram que o blockchain surgiu para dar vida ao bitcoin e hoje já representa um grande avanço no caminho da descentralização das relações comerciais. “Blockchain exige uma mudança cultural. Pela primeira vez acontece uma inversão no modelo até hoje utilizado, em que a confiança é depositada em players conhecidos e centralizados, para um sistema em que a segurança e a confiança são alcançadas de forma totalmente descentralizada”, afirma Fernando Ulrich, especialista em criptomoedas e blockchain do grupo XP.

Outros consideram que o paralelo entre o blockchain e a internet faz todo o sentido: o que a internet fez pelas comunicações, o blockchain vai fazer pela transmissão de dados com valor. “O que a internet trouxe de conteúdo, o blockchain traz de confiança”, afirmou Luca Cavalcanti, diretor executivo de canais digitaisinovação e Next do Bradesco. O que significa que os impactos do blockchain serão sentidos em uma ampla variedade de setores, incluindo logística, direito, comunicações, serviços financeiros, indústria automobilística, agricultura, gestão pública, saúde, contabilidade, ajuda humanitária, varejo, cultura.

 Luca Cavalcanti, diretor executivo de canais digitais, inovação e Next do Bradesco, e Katia Militello, da TW Content

Luca Cavalcanti, diretor executivo de canais digitais, inovação e Next do Bradesco, e Katia Militello, da TW Content

 

Aplicações concretas

O Blockchain Festival não ficou na teoria. Durante o evento, foram apresentados, com detalhes, quatro estudos de casos, iniciativas que já transformaram a tecnologia em realidade concreta. Projetos que dão uma amostra do impacto do blockchain na sociedade, nas empresas e no governo.

 Percival Lucena, da IBM, fala sobre o uso do blockchain na segurança alimentar

Percival Lucena, da IBM, fala sobre o uso do blockchain na segurança alimentar

É o caso da segurança alimentar, por exemplo. Um projeto da IBM, chamado Food Tracking, tem por meta usar a tecnologia para monitorar a cadeia de produção, distribuição e comercialização de alimentos, para assim garantir a procedência e identificar pontos de contaminação. “Criamos uma rede específica, que permite que produtores, transportadores, processadores de alimentos consigam rastrear como esse alimento está chegando, desde o ponto de produção até o ponto final”, afirmou o palestrante Percival Lucena, mestre em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante do laboratório da IBM para projetos em blockchain.

 Networking quente no intervalo entre as palestras

Networking quente no intervalo entre as palestras

Em outro setor, bem diferente, a tecnologia está transformando toda a estrutura administrativa do Esporte Clube Cruzeiro, de Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul. O time, que tem 104 anos de história, enfrenta todos os problemas comuns aos clubes de pequeno porte, em especial a falta de fontes de renda estáveis e a gestão dependente de poucos torcedores abnegados e não-remunerados. A Iconic, uma startup que fornece uma plataforma para o lançamento de ICOs, ofereceu à diretoria do Cruzeiro a proposta de criar o blockchain para mudar toda a estrutura do clube. “Demos um banho de descentralização no Cruzeiro, para que chegássemos a um novo nível de participação, de financiamento e monetização”, disse, no evento, o advogado e CEO da Iconic, Jonathan Darcie. O projeto foi batizado de Cruzeiro Open Source e inclui a transmissão aberta de todos os treinos do clube.

 Jonathan Darcie conta como utiliza o blockchain para administrar o Esporte Clube Cruzeiro

Jonathan Darcie conta como utiliza o blockchain para administrar o Esporte Clube Cruzeiro

Já o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) está adotando sua própria criptomoeda. O sistema funciona como uma carteira eletrônica de pagamentos. Uma vez aprovado o financiamento, o BNDES vai repassar uma quantia específica de moedas virtuais às empresas ou organizações. Estas, por sua vez, vão usar esse dinheiro digital para contratar fornecedores já cadastrados previamente – e eles poderão converter o dinheiro virtual em reais. “A gente estava olhando muito para uma característica do blockchain, que é possibilidade de criar confiança”, afirmou a líder da Iniciativa Blockchain do BNDES, Vanessa Almeida, que apresentou o projeto ao lado de Gladstone Arantes, que tem mais de 20 anos de experiência na área de TI e concebeu o BNDES Token.

 Especialistas em blockchain tiram dúvidas no estande do inovaBra

Especialistas em blockchain tiram dúvidas no estande do inovaBra

O quarto estudo de caso foi apresentado por Daniel Duarte, engenheiro de controle e automação e cofundador da Auctus, uma empresa que se utiliza de contratos inteligentes, apoiados por blockchain, para desenvolver planos de previdência privada. Com os planos privados suportados pela tecnologia, os clientes ganham em confiabilidade. “Sempre que uma entidade centralizadora tem o controle e, do dia para a noite, pode desmantelar a estrutura e deixar todos os usuários na mão, temos um caso em que uma solução descentralizada tem potencial para causar impacto no mercado”, diz Duarte.

 Vanessa Almeida e Gladstone Arantes falam de financiamentos do BNDES em criptomoedas

Vanessa Almeida e Gladstone Arantes falam de financiamentos do BNDES em criptomoedas

Polêmicas

Toda tecnologia disruptiva provoca polêmicas. O blockchain está cercado por elas, e os palestrantes não se furtaram a debatê-las. A existência de blockchains permissionados (também chamados de privados) é uma delas. Redes descentralizadas não deveriam, por definição, ser abertas e sem proprietários? “O blockchain permite a maior possibilidade de avanço, de liberação, de descentralização”, afirmou o advogado e professor Diogo Busse, embaixador da Democracy Earth Foundation no Brasil. “Os blockchains privados têm um papel relevante, talvez não tão revolucionário, quanto o público”, disse, por sua vez, o especialista Gladstone Arantes. “Podem não ser tão disruptivos, não ter o mesmo potencial para criar novos modelos de negócios, mas têm uma característica muito interessante, que é a de integrar cadeias de produção”.

 Daniel Duarte explica como usar contratos inteligentes, via blockchain, em planos de previdência privada

Daniel Duarte explica como usar contratos inteligentes, via blockchain, em planos de previdência privada

A necessidade de regulação também rendeu diálogos ricos. “A mudança de regulação tem que ser algo muito bem pensado, não pode ser feita na louca. Temos um sistema financeiro muito sólido”, disse, por exemplo, Gustavo Fosse, diretor de TI do Banco do Brasil e diretor da comissão de tecnologia e automação bancária do Cnab/Febraban. Gustavo Paro, executivo de contas estratégicas de serviços financeiros e seguradoras da Microsoft Brazil, considera que “a inovação pede desculpas, e não licença. A regulação vem depois, mas pode ser muito positiva, muito favorável”.

A grande quantidade de ICOs, as ofertas iniciais de moedas, também foi uma assunto do Blockchain Festival. “A primeira ICO foi um evento fortuito, que aconteceu porque um moleque extremamente inteligente pensou em fazer um levantamento coletivo de fundos para criar uma plataforma, que se chamou Ethereum. Mas, em 2017, qualquer pessoa, escrevendo um paper cheio de frases que ninguém entende, começou a levantar fortunas”, disse Courtnay Guimarães, CTO e sócio-fundador da consultoria Idea Partners. “Ninguém pode ser contra uma tecnologia que facilita o levantamento de capital de forma rápida, barata e eficiente. Mas o ICO paga pelo sucesso e acabou naturalmente atraindo uma série de picaretas”, afirmou Régio Soares Ferreira Martins, superintendente de produtos da B3 e membro da equipe de pesquisa em blockchain da bolsa.

 

Rede aberta e segura

Para finalizar o dia – mas não o tema, que vai continuar conduzindo inovações e apresentando desafios –, o apresentador do evento, o jornalista Pedro Dória, também escritor e colunista de O Globo, O Estado de S. Paulo e CBN, resumiu o tamanho da mudança trazida pela tecnologia. “Entre 1991 e 1993, quando a internet deixou de ser uma ferramenta acadêmica, o ambiente de utilização era fechado. Entre 1995 e 2002, surgiu um modelo de internet aberta. Desde então, com as redes sociais e os smartphones, o ambiente ficou fechado novamente”. Estamos entrando, diz ele, num novo estágio: “A internet aberta tinha um problema, a questão da identidade segura. Agora estamos caminhando para um modelo de rede aberta, que preserva a segurança. E o responsável por isso é a tecnologia blockchain”.

Blockchain Festival